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24 de outubro de 2026 · Ale Rodrigues

Rastreabilidade do rebanho: comece pelas bezerras que estão nascendo hoje

Entenda o cronograma do PNIB e como identificar e registrar bezerras para preparar sua fazenda e melhorar a gestão do rebanho de cria.

Se alguém chegasse hoje à sua fazenda e pedisse para ver, uma a uma, as bezerras que nasceram nesta parição, com a data de nascimento, a vaca de cada uma e o dia em que foram vacinadas contra a brucelose, você conseguiria mostrar isso num caderno, numa planilha ou num aplicativo, ou teria de responder com a contagem do lote e uma estimativa feita de cabeça?

A pergunta é de controle zootécnico, mas a partir do ano que vem passa a ter também peso legal. Em 21 de julho de 2025, a Secretaria de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) assinou a Portaria SDA/MAPA nº 1.331, que instituiu o cronograma de implantação do Programa Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos, conhecido pela sigla PNIB, e a primeira categoria de animais que esse cronograma alcança na obrigatoriedade são as fêmeas vacinadas contra a brucelose, a partir de 2027. Como essa vacina é aplicada em bezerras, a porta de entrada da rastreabilidade individual no Brasil fica dentro da fazenda de cria, no mesmo curral onde a sua equipe vacina e marca as bezerras.

Este artigo trata de uma única ideia: o criador é o primeiro elo da rastreabilidade, e quem decidir agora, com calma, como vai identificar e registrar cada bezerra transforma uma exigência sanitária em ferramenta de gestão, enquanto quem deixar para a véspera vai colocar brinco às pressas apenas para cumprir tabela, pagando o custo sem colher o benefício.

O que o cronograma prevê

Segundo a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), que divulgou a portaria em julho de 2025, a implantação foi dividida em quatro etapas, começando naquele mês e terminando no fim de 2032, e a partir de 1º de janeiro de 2033 fica proibida a movimentação de bovinos e búfalos sem identificação individual e sem registro no sistema oficial.

Pelo resumo publicado pelo portal Broto Notícias na mesma semana, a primeira etapa criou o sistema federal e a base central de dados; a segunda, que vai até 31 de dezembro de 2026, é o prazo para os órgãos estaduais de defesa sanitária animal adequarem seus sistemas à base nacional; a terceira, de janeiro de 2027 a dezembro de 2029, torna obrigatória a identificação dos animais submetidos a manejos sanitários como a vacinação contra a brucelose e dos que participam de protocolos privados aprovados; e a quarta, de 2030 a 2032, amplia a exigência até alcançar todo o rebanho. A Acrimat (Associação dos Criadores de Mato Grosso) descreveu a terceira etapa da mesma forma.

Para dar a dimensão: o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) contou 234,3 milhões de bovinos no país em 2025, segundo a Pesquisa da Pecuária Municipal divulgada em 30 de setembro de 2026, e cada um desses animais, até o fim de 2032, precisará ter um número próprio para poder sair da fazenda. Hoje o controle oficial do trânsito se apoia na GTA (Guia de Trânsito Animal), que acompanha o lote, e não o animal; um conteúdo baseado no Boletim 64 do Cicarne (Centro de Inteligência da Carne Bovina, da Embrapa), publicado pelo portal Compre Rural em janeiro de 2024, lembra que esse modelo coletivo não permite ao serviço veterinário oficial conhecer o histórico detalhado de cada animal, e é justamente essa lacuna que o PNIB pretende fechar.

Agora a conta que interessa a quem tem vaca parindo. O Manual do Médico-Veterinário Cadastrado para a vacinação contra a brucelose, publicado pelo Mapa em 2026, fixa a vacinação obrigatória em fêmeas de três a oito meses de idade; uma bezerra nascida em outubro de 2026 completa três meses em janeiro de 2027. Em outras palavras, as primeiras bezerras que vão estrear a nova regra, se o cronograma for mantido, já estão no pasto, ao pé da vaca.

Cabe uma ressalva, para que você não aja com informação pela metade. A própria portaria permite que os estados avancem no cronograma, desde que cumpram os requisitos mínimos, como a CNA registrou; e detalhes operacionais, como o tipo de brinco ou de dispositivo aceito, o momento exato da identificação e quem lança os dados no sistema, dependem da regulamentação, que ainda está em evolução, e do órgão de defesa sanitária do seu estado. Um policy brief do Insper Agro Global, publicado em janeiro de 2025 (policy brief é um documento curto de análise de política pública), observa que o PNIB não exige identificação ao nascimento, e sim a partir da movimentação ou da vacinação. Por isso, a primeira tarefa é perguntar diretamente ao órgão estadual o que vai valer na sua região.

Por que a cria é o primeiro elo

Na cadeia da carne, cada etapa recebe o animal da anterior, do criador ao recriador, ao terminador e ao frigorífico. Num sistema de identificação individual, a identidade do animal nasce onde ele nasce, e tudo o que vier depois dependerá da qualidade desse primeiro registro, porque só quem está na cria sabe com segurança a data de nascimento, a mãe, o lote e o manejo sanitário dos primeiros meses de vida. Se o primeiro elo registra mal, nenhum dos elos seguintes consegue consertar.

Há também uma leitura de mercado que merece atenção, com a cautela de que se trata de opinião, e não de regra. Em matéria do portal Notícias Agrícolas de março de 2026, Aécio Flores, coordenador do Grupo de Trabalho de Rastreabilidade da Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável, afirmou que "o decréscimo de preço vai ser para animal que vai estar fora do processo", e Lisandro Inakake, gerente de projetos do Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola), disse que "quem se movimenta primeiro tem vantagens, porque se estrutura antes e comunica antes". Nenhuma das falas garante prêmio no preço do seu bezerro, e as fontes consultadas não trazem levantamento público de quanto a mais se paga hoje por bezerro identificado; elas mostram a direção em que parte do setor espera que o mercado ande, o que já basta para quem planeja não esperar.

Brinco para cumprir tabela ou registro para decidir

A obrigação será a mesma para todos, mas o proveito, não. Haverá a fazenda que vai colocar o brinco na véspera da vacinação, lançar o número onde o órgão estadual pedir e nunca mais olhar para ele; e haverá a fazenda que vai usar o mesmo número para saber qual vaca deu qual bezerra, quanto cada bezerra pesou na desmama, de qual touro ou de qual lote de inseminação ela veio e quais vacas, ano após ano, desmamam as filhas mais pesadas. O brinco pendurado na orelha é o mesmo nos dois casos; a diferença está inteira no que se faz com a informação que ele carrega.

Essa ideia, aliás, não é nova. Em 2006, a Embrapa Gado de Corte publicou o Comunicado Técnico 97, sobre identificadores eletrônicos como ferramenta para o gerenciamento de rebanhos de corte, descrevendo o registro no campo do sexo, do tamanho e da pelagem do bezerro ao nascer, "associando o bezerro à sua mãe de forma simples, rápida e segura", e a possibilidade de identificar e pesar os animais em segundos sobre uma balança eletrônica. O princípio continua de pé: o número só vale quando está ligado a uma informação registrada com cuidado. A reportagem do portal Sou Agro de agosto de 2026 vai na mesma linha, ao lembrar que a identificação pode servir como ferramenta de gestão, para acompanhar ganho de peso, reprodução e tratamentos, desde que os dados da propriedade estejam organizados e integrados aos sistemas oficiais.

Quanto ao custo, o mesmo policy brief do Insper aponta que o preço dos dispositivos eletrônicos de identificação pode inviabilizar a adesão de pequenos produtores, e a reportagem do Sou Agro registra que serão usados dispositivos visuais ou eletrônicos, conforme as normas técnicas. As fontes consultadas não trazem um valor por animal que possa ser citado com segurança; a conta da sua fazenda precisa ser feita com cotações reais, depois de saber o que o seu estado vai aceitar.

As decisões que cabem a você antes de janeiro

A primeira decisão é se informar na fonte: procure o órgão estadual de defesa sanitária animal e pergunte o que o seu estado vai exigir em 2027, que dispositivos serão aceitos, como os números serão lançados no sistema e se haverá antecipação de etapas. A segunda é escolher o momento da identificação, se as bezerras serão identificadas ao nascer, na marcação ou no próprio dia da vacinação contra a brucelose, sabendo que cada escolha tem consequência de manejo, de perda de brinco e de qualidade do registro; essa escolha deve ser feita junto com o médico-veterinário cadastrado que vacina o seu rebanho, porque é ele quem emite o atestado de vacinação e conhece as exigências do serviço oficial. A terceira é definir quem registra e onde: uma pessoa responsável, um único lugar para guardar os dados (caderno de campo, planilha ou aplicativo) e uma rotina que não dependa da memória de ninguém. A quarta é fixar o mínimo que será anotado de cada bezerra, e número, data de nascimento, número da mãe, lote, data da vacina e peso na desmama já formam uma base útil para começar. A quinta é colocar esse custo no orçamento do próximo ano, em vez de descobrir o gasto no dia do curral.

Nenhuma dessas decisões exige dinheiro hoje; todas exigem tempo, conversa e um pouco de ordem, e é exatamente por isso que costumam ser adiadas até o momento em que deixam de ser decisões e viram correria.

Perguntas para responder com os seus números

Responda, ainda nesta semana, com os registros da fazenda na mão. Quantas bezerras nasceram na sua última parição, e você sabe dizer a mãe de cada uma? Quantas foram vacinadas contra a brucelose, em que data, e onde estão os atestados? Se hoje um comprador pedisse o histórico individual de um lote de bezerros, quanto tempo você levaria para montá-lo, e com que grau de confiança assinaria embaixo? Que informação sobre o seu rebanho você gostaria de ter e não tem, simplesmente porque os animais não são identificados um a um? E quem, na sua equipe, responderá por esse registro a partir de janeiro?

Se a resposta a alguma dessas perguntas for um silêncio, o primeiro achado já está feito: a fazenda que não registra hoje vai começar a registrar por obrigação, e a diferença entre começar por obrigação e começar por decisão é a qualidade do dado que você terá nas mãos daqui a cinco anos.

Prudência, ordem e verdade sobre o próprio rebanho

O livro de Provérbios tem uma frase que serve bem a quem lida com prazo marcado e regra nova: "O prudente percebe o perigo e busca refúgio; o inexperiente segue adiante e sofre as consequências."(Provérbios 22:3, NVI). Prudência, neste caso, é enxergar com antecedência uma mudança que já tem data e se preparar enquanto ainda há tempo de escolher como fazer, em vez de ser escolhido pelo prazo; e há uma questão de integridade nessa história, porque um registro individual bem feito é, no fundo, uma forma de dizer a verdade sobre o próprio rebanho, para o comprador, para o serviço sanitário e para você mesmo, sem estimativa de cabeça e sem número arredondado para cima.

É nesse ponto que um olhar de fora costuma ajudar, porque quem vive a rotina da fazenda tende a achar que conhece cada vaca pelo jeito e não percebe o quanto dessa memória se perde quando um vaqueiro sai ou quando a fazenda passa para a geração seguinte; alguém sem vínculo com a operação pergunta, sem constrangimento, onde está cada informação e quem responde por ela, e ajuda a desenhar um sistema simples o bastante para ser cumprido no curral. Esse tipo de diagnóstico, feito com imparcialidade e com respeito pela história de quem construiu a fazenda, faz parte do trabalho da Direcione.

O brinco pendura um número na orelha da bezerra... mas só a ordem do dono transforma esse número em informação.

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