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26 de outubro de 2026 · Ale Rodrigues

Fluxo de caixa na cria: planeje a venda dos seus bezerros

Aprenda a projetar o fluxo de caixa da fazenda por 12 meses, antecipar despesas e evitar a venda de bezerros por falta de dinheiro.

Se a sua fazenda precisasse pagar amanhã a folha, o sal, a vacina, o combustível e a parcela do custeio, e o próximo lote de bezerros só fosse para a balança daqui a sete ou oito meses, você saberia dizer hoje, com um número escrito em algum lugar, de onde viria o dinheiro de cada um desses meses, ou descobriria, como tantos descobrem, no dia em que o saldo da conta não fechasse?

Faço a pergunta porque, na cria, o dinheiro tem um calendário próprio, que quase nunca coincide com o calendário das despesas. A receita chega concentrada em poucos meses do ano, quando os bezerros desmamados são vendidos e as vacas de descarte embarcam, enquanto a despesa corre todos os meses e costuma pesar mais justamente agora, com a chegada das chuvas no Brasil Central, a estação de monta e as compras do período das águas. Quem não enxerga esse descompasso com antecedência acaba resolvendo o problema do jeito mais caro que existe, deixando que a falta de dinheiro, e não o planejamento, decida quando vender e quanto pagar de juros.

Este artigo trata de uma única ferramenta, o fluxo de caixa projetado para os próximos doze meses, e de uma única ideia: na cria, quem não projeta o caixa mês a mês entrega ao banco e ao comprador decisões que deveriam ser suas.

Fotografia e filme

Em um episódio da série A Conta do Boi, publicado pelo Canal Rural em novembro de 2025, o zootecnista Gustavo Sartorello usou uma imagem que ajuda a entender o ponto: o saldo positivo de um mês é uma fotografia, e o fluxo de caixa é o filme. Como as receitas da pecuária se concentram em certas épocas, o extrato do mês de uma boa venda dá uma sensação de folga que o resto do ano pode desmentir. O mesmo texto aponta as duas consequências mais comuns de quem não enxerga o filme, que são vender bezerros antes da hora ou recorrer a juros altos, e lembra o inverso: quem sabe que terá dinheiro sobrando pode comprar insumos com desconto.

Vale separar duas palavras que costumam andar misturadas na conversa de fazenda. Fluxo de caixa é o registro, e a projeção, das entradas e saídas de dinheiro mês a mês, na data em que o dinheiro de fato entra ou sai da conta. Resultado, ou lucro, é outra conta, que compara a receita da atividade com todos os seus custos ao longo da safra. Uma fazenda pode ter lucro no ano e, mesmo assim, ficar sem dinheiro em setembro; e pode ter a conta cheia em junho porque vendeu um trator, sem que a cria tenha dado um centavo de lucro, o que a reportagem também lembra ao separar a receita do gado das entradas que não vêm dele.

Por que a cria sofre mais com o calendário

Na cria, a biologia dita o ritmo do dinheiro. Com estação de monta definida, a parição se concentra, a desmama se concentra e a venda dos bezerros também. Um comunicado técnico da Embrapa Pantanal, de 2008, que analisou o preço do bezerro pago na região da Nhecolândia entre 2001 e 2008, registrou que nos sistemas de cria metade da receita financeira do produtor vinha da venda de bezerros e que, enquanto os custos eram conhecidos, as receitas eram incertas, porque o produtor geralmente não sabia de antemão por qual preço venderia seus animais. É um estudo regional e antigo, mas a lógica vale para qualquer cria: a receita principal chega de uma vez, com preço que você não controla, para pagar despesas que chegaram aos poucos.

O preço do bezerro também tem o seu calendário. O levantamento do Projeto Campo Futuro de 2024, conduzido pela CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) com o Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo), menciona que o preço do bezerro desmamado tem sazonalidade, com tendência de queda a partir de abril, período em que boa parte das fazendas começa a desmamar. Quem precisa vender para pagar conta vende quando muitos estão vendendo; quem tem o caixa planejado pode, pelo menos, escolher.

Receita boa também precisa de calendário

O momento de mercado torna essa conversa mais urgente, e não menos. Segundo dados do Cepea compilados pelo portal Farmnews, o bezerro em Mato Grosso do Sul foi cotado a R$ 533,50 por arroba em 13 de outubro de 2026, uma alta de 22,8% desde o fim de 2025, e no início do mês o preço por cabeça havia chegado a R$ 3.453,60, máxima nominal da série. Isso pode significar uma entrada maior na próxima desmama, mas nenhum preço resolve sozinho a pergunta do caixa: como esse dinheiro vai atravessar os meses entre uma venda e outra.

Venda boa sem calendário costuma terminar do mesmo jeito que venda ruim sem calendário, só que alguns meses depois: a conta engorda na desmama, a sensação de folga autoriza a troca da caminhonete ou um investimento que estava para depois, e no meio da parição o saldo já não acompanha, sem que o rebanho tenha qualquer culpa nisso.

O preço do dinheiro que falta

Quando o caixa aperta sem aviso, o pecuarista tem basicamente três saídas, e nenhuma é gratuita. A primeira é vender animais fora do momento planejado, às vezes bezerros mais leves, às vezes vacas que ainda tinham função no rebanho, no preço que o comprador oferecer naquela semana. A segunda é recorrer ao crédito. O Plano Safra 2026/2027, divulgado pelo governo federal em junho de 2026, conforme noticiou o Canal Rural, fixou juros de até 9% ao ano no custeio do Pronamp (Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural) e de 12,5% ao ano para os demais produtores, com possibilidade de desconto de até um ponto percentual, metade para quem tem o CAR (Cadastro Ambiental Rural) regular e metade para quem adota práticas sustentáveis ou certificações reconhecidas. Esse é o crédito rural, com taxa controlada e prazo para ser contratado; o dinheiro tomado às pressas fora dele, no cheque especial ou em capital de giro bancário, costuma custar bem mais. A terceira, a mais silenciosa, é adiar o que precisava ser feito e pagar essa conta depois, em desempenho do rebanho.

Crédito contratado com antecedência, dentro de um plano, é uma ferramenta de gestão; crédito tomado na véspera do vencimento é um sintoma. A diferença entre os dois está quase sempre numa planilha de doze colunas que ninguém montou.

Como montar o filme da sua fazenda

O exercício cabe numa folha de papel ou numa planilha simples, e outubro é um bom mês para começar, porque a próxima receita grande ainda está longe. Desenhe doze colunas, uma para cada mês, a partir de agora. Na parte de cima, lance as saídas fixas, aquelas que acontecem todo mês, como salários e encargos, energia, combustível, manutenção e sal mineral. Abaixo delas, as saídas sazonais, que têm mês certo para acontecer: os gastos da estação de monta, com touros, inseminação e mão de obra extra, as vacinações do calendário sanitário do seu estado, a adubação, a suplementação da seca, os impostos e as parcelas de financiamentos já contratados. Os produtos, as doses e o calendário do manejo sanitário e nutricional são definidos com o médico veterinário ou o zootecnista responsável; ao fluxo de caixa cabe reservar, no mês certo, o dinheiro para que essas decisões técnicas aconteçam.

Em linha separada, e isso faz toda a diferença, coloque a retirada do dono e da família. Fazenda em que a despesa da casa sai do mesmo caixa, sem valor nem data combinados, deixa de ter controle sobre o próprio dinheiro e vira um bolso coletivo com inscrição de produtor rural; e, em fazenda com sucessores trabalhando, essa linha costuma ser a primeira fonte de desentendimento quando o dinheiro aperta.

Na parte de baixo, as entradas: quantos bezerros você espera vender, em que mês, com que peso e a que preço, usando um preço conservador e não o recorde da semana; quantas vacas de descarte e novilhas excedentes; e, separadas, as receitas que não vêm do gado. Some o saldo de cada mês ao saldo do mês anterior, começando pelo que existe hoje na conta, e procure o mês em que o número fica mais baixo. Esse é o mês que vai decidir por você, se você não decidir antes.

Para ilustrar com um caso hipotético, sem números de nenhuma fazenda real: imagine uma propriedade que vende todos os bezerros em junho e algumas vacas de descarte em julho. Se a soma das saídas de agosto a maio for maior do que o saldo deixado em julho, o mês em que a conta vai ficar negativa já está escrito no papel, muitas vezes com seis ou oito meses de antecedência. Com esse aviso nas mãos, o dono escolhe o que antecipar, adiar ou negociar, e se vale contratar custeio no tempo certo; sem o aviso, quem escolhe é o vencimento.

Feita a projeção, compare no fim de cada mês o previsto com o realizado e corrija os meses seguintes, porque fluxo de caixa guardado na gaveta vira apenas um desejo bem formatado.

Perguntas para responder com os seus números

Proponho que você responda, ainda nesta semana, com os registros da sua fazenda na mão. Quanto entrou na conta da fazenda nos últimos doze meses, e quanto disso veio de fato do gado? Em quais meses entrou, e em quais meses o saldo foi o mais baixo do ano? Quanto a fazenda gasta num mês sem nenhuma venda, e quais parcelas de financiamento vencem até a próxima desmama? E, olhando para trás, quantas vezes nos últimos anos você vendeu animais, ou tomou dinheiro emprestado, porque a conta exigiu, e não porque era a melhor hora?

Se alguma dessas respostas não existe, porque o dado nunca foi separado ou porque o caixa da fazenda e o da casa são o mesmo, esse é o primeiro achado, e talvez o mais importante. Fazenda que não sabe em que mês o dinheiro vai faltar não planeja a venda; apenas reage a ela.

Ordem antes da colheita

Há uma razão para insistir em algo tão simples, e ela vai além da técnica. O Evangelho de Lucas registra uma pergunta de Jesus que qualquer pecuarista entende: qual de vós, querendo edificar uma torre, não se assenta primeiro a fazer as contas dos gastos, para ver se tem com que a acabar? (Lucas 14:28, Almeida Revista e Corrigida). Sentar e fazer as contas antes de começar é uma forma de ordem e de discernimento, porque obriga o dono a olhar para o ano inteiro, e não apenas para o mês em que o dinheiro sobra; e há integridade nisso, porque o calendário escrito impede que se prometa ao fornecedor ou à família um dinheiro que ainda não existe.

Congruência, no caixa de uma fazenda, é o dono saber com antecedência o que vai acontecer com o dinheiro e agir de acordo com o que sabe. E aqui um olhar de fora costuma ajudar mais do que parece, porque quem vive a rotina da fazenda se acostuma com os apertos de cada ano e passa a tratá-los como parte da paisagem, enquanto alguém sem vínculo com a operação olha para os mesmos extratos e pergunta, sem constrangimento, por que o mesmo mês aperta todo ano. Fazer esse tipo de pergunta, com imparcialidade e respeito pela história de quem construiu a fazenda, é parte do trabalho da Direcione.

Na cria, o bezerro nasce uma vez por ano, mas a conta nasce todo mês... e quem não escreve o calendário do dinheiro acaba vendendo no calendário do aperto.

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