Exame andrológico: avalie seus touros antes da estação de monta
Entenda como o exame andrológico dos touros ajuda a reduzir falhas na prenhez e prejuízos na cria, com laudos e manejo antes da monta.

Quantos dos touros que vão para o pasto nesta estação de monta passaram por um exame andrológico completo nos últimos dois meses, e quantos estão lá porque cobriram bem no ano passado, porque têm boa estampa ou simplesmente porque ninguém lembrou de perguntar? Se para responder você precisa ligar para o capataz, ou se a resposta vem acompanhada de um silêncio meio constrangido, vale ler este texto até o fim, porque o assunto parece ser de veterinária, mas no fechamento do ano ele vira bezerro que não nasceu, vaca que comeu um ano inteiro sem produzir e caixa que não fechou.
Nesta época, com a chegada das chuvas, boa parte das fazendas de cria do Brasil Central está começando a estação de monta ou está a poucas semanas dela, e é justamente agora que se toma, quase sempre sem perceber, uma das decisões de maior alavanca da operação inteira: quais touros entram, em quais lotes e com que garantia de que são capazes de fazer o serviço para o qual foram colocados ali.
Por que um touro pesa mais do que parece
Uma vaca que falha custa um bezerro. Um touro que falha custa o lote. A Embrapa Pecuária Sudeste, na Circular Técnica 53, de 2007, lembra que a proporção tradicional em uso nas fazendas é de um touro para cerca de trinta fêmeas, o que significa que cada reprodutor colocado no pasto carrega nas costas a expectativa de dezenas de bezerros, e que um único touro subfértil (isto é, com fertilidade abaixo do necessário, embora não seja totalmente estéril) espalha o prejuízo por todo o grupo de vacas que dependia dele, sem dar nenhum sinal visível durante a estação, porque ele continua andando no lote, continua montando e continua parecendo trabalhar.
E não se trata de exceção de fazenda pequena. Segundo o Index ASBIA 2025, levantamento da Associação Brasileira de Inseminação Artificial feito com o Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, da Esalq/USP) e divulgado em fevereiro de 2026, 21,29% das matrizes brasileiras foram inseminadas em 2025, número recorde e que merece ser comemorado, mas que deixa a imensa maioria das vacas do país dependendo do touro para emprenhar. Mesmo nas fazendas que já adotaram a IATF (inseminação artificial em tempo fixo, em que um protocolo hormonal sincroniza as vacas para que o lote inteiro seja inseminado no mesmo dia, sem observação de cio), o touro de repasse entra logo depois para cobrir as vacas que não emprenharam na inseminação, e é ele quem decide se a estação termina com um índice de prenhez satisfatório ou com uma sobra de vacas vazias que só será descoberta no diagnóstico de gestação.
Some a isso o momento de mercado. O Cepea registrou, segundo reportagem do Canal Rural de agosto de 2026, valorização de 9,6% no indicador do bezerro de Mato Grosso do Sul entre janeiro e 19 de agosto deste ano. Cada bezerro que deixa de nascer por causa de um touro que ninguém examinou vale mais agora do que valia há um ano, e essa conta não aparece em nenhum relatório, porque ninguém registra o bezerro que não existiu.
O que os números de campo mostram
Seria confortável imaginar que touro inapto é coisa rara, um azar que acontece de vez em quando. Os dados publicados não autorizam esse conforto. A Embrapa Pantanal avaliou touros Nelore criados de forma extensiva no Planalto e no Pantanal de Mato Grosso do Sul e publicou o resultado na Circular Técnica 100, de 2011: entre os touros jovens, de 16 a 24 meses, 15,9% foram classificados como inaptos no Pantanal e 18,4% no Planalto; na faixa de 25 a 48 meses, os inaptos foram 16,6% e 17,4%; e entre os touros com mais de 108 meses no Planalto, o percentual chegou a 25,8%. No grupo mais jovem do Pantanal, além dos inaptos, 52,2% dos animais ficaram na categoria de questionáveis, ou seja, touros que não podiam ser liberados com segurança naquele momento.
A mesma Circular Técnica 53 da Embrapa Pecuária Sudeste cita um estudo bem mais antigo, de Vale Filho e colaboradores, de 1978, em que 53,34% de 628 touros em serviço em diversos rebanhos apresentaram baixa fertilidade ou infertilidade. É um dado de quase cinquenta anos, de outra pecuária, e não deve ser lido como retrato de hoje; serve apenas para mostrar que o problema é conhecido há décadas e continua aparecendo sempre que alguém se dá ao trabalho de medir.
Nenhum desses números descreve a sua fazenda. Eles descrevem populações específicas, em lugares e épocas específicas. O que eles autorizam é uma pergunta honesta: se algo próximo de um em cada seis touros examinados nesses estudos não estava apto, qual é a probabilidade de que todos os seus estejam, sem que ninguém tenha olhado?
O que o exame andrológico de fato avalia
Vale explicar, porque muita gente fala do exame sem saber exatamente o que ele mede. O exame andrológico é a avaliação da capacidade reprodutiva do macho feita pelo médico veterinário, e o manual de referência no Brasil é o do CBRA (Colégio Brasileiro de Reprodução Animal). Ele começa por um exame clínico geral e dos órgãos reprodutivos, inclui a medida do perímetro escrotal (a circunferência da bolsa escrotal, tirada com fita, que tem relação direta com a produção de espermatozoides) e segue para a coleta e avaliação do sêmen, normalmente obtido por eletroejaculação, em que se observam a motilidade (a porcentagem de espermatozoides que se movimentam), o vigor desse movimento e a morfologia, isto é, a proporção de espermatozoides com defeitos de cabeça, peça intermediária ou cauda. Ao final, o veterinário classifica o animal como apto, questionável ou inapto.
Há dois detalhes que costumam passar despercebidos e que mudam a forma de usar o laudo. O primeiro é que o exame retrata a condição do touro naquele momento. A produção de espermatozoides leva em média cerca de sessenta dias para se completar, e por isso o laudo envelhece: algumas entidades e eventos de comercialização exigem que laudos com mais de sessenta dias sejam refeitos, e um touro classificado como questionável por uma condição passageira costuma ser reavaliado depois desse intervalo para que se chegue a uma conclusão. Laudo da estação passada, portanto, diz pouco sobre a estação que começa agora.
O segundo detalhe é que o sêmen bom não garante o serviço. A Circular Técnica 53 registra que os testes de libido, que avaliam o desejo e a capacidade do touro de efetivamente montar e cobrir, são eficientes e devem complementar o exame andrológico. Um touro pode ter sêmen dentro dos padrões e ainda assim cobrir pouco, seja por falta de disposição, por um problema de casco ou de aprumo que dói na hora da monta, seja porque outro touro do lote não deixa.
E esse último ponto merece atenção à parte. A mesma publicação aponta a ordem de dominância social entre os touros como um dos fatores que interferem na proporção touro e vaca. Em lote com mais de um reprodutor, o touro dominante tende a ocupar as vacas em cio e a afastar os outros; se esse dominante for justamente o mais velho e o menos fértil, o lote inteiro paga pela hierarquia, e quem olha de longe vê apenas touros em atividade.
As perguntas que a sua operação precisa conseguir responder
Proponho um exercício simples, que não exige consultor nem planilha sofisticada, apenas honestidade com os próprios registros. Você sabe dizer, hoje, quantos touros estão escalados para a estação, em quais lotes e com quantas vacas cada lote, de modo que a proporção real (e não a imaginada) esteja escrita em algum lugar? Para cada touro, existe um laudo andrológico com data, nome do veterinário que assinou e classificação, e essa data é recente o bastante para dizer algo sobre a condição dele agora? O que foi decidido com os touros classificados como questionáveis no último exame: foram reavaliados, descartados ou simplesmente voltaram para o pasto porque era o que havia? Você registra qual touro esteve em qual lote, de forma que, quando sair o diagnóstico de gestação, seja possível cruzar a prenhez de cada grupo com o reprodutor responsável e descobrir onde a estação falhou? E quanto custa, na sua realidade, repor um touro, comparado com o que custa um lote inteiro com prenhez abaixo do esperado?
Se alguma dessas respostas é não, ou é eu acho, você não está diante de um problema de veterinária. Está diante de um problema de ordem, porque a informação que define o resultado da cria do próximo ano está sendo decidida no escuro, na base da confiança no touro que sempre funcionou. Confiança é virtude nas relações entre pessoas; aplicada a um animal que ninguém avaliou, ela tem outro nome, e o nome é risco não medido.
Um cuidado importante: nada aqui substitui a avaliação do médico veterinário responsável pela fazenda. Não cabe a um artigo dizer qual touro deve sair, qual protocolo usar ou que tratamento aplicar. O que cabe ao dono e ao gestor é exigir que a pergunta seja feita a tempo, que o laudo exista e que a decisão tomada a partir dele fique registrada, com nome, data e motivo. Se a estação já começou ou começa na semana que vem, ainda há o que fazer: conversar com o veterinário sobre examinar o que não foi examinado, rever a proporção nos lotes, acompanhar de perto as coberturas nos primeiros ciclos e, sobretudo, anotar desde já a data em que o exame da próxima estação precisa acontecer, com antecedência suficiente para que um touro questionável possa ser reavaliado ou substituído sem pressa.
Ordem, discernimento e o olhar de fora
Há um versículo em Provérbios que todo pecuarista deveria ter pendurado na parede do escritório da fazenda: "Procura conhecer o estado das tuas ovelhas; cuida bem dos teus rebanhos" (Provérbios 27:23, na tradução Almeida Atualizada). Conhecer o estado do rebanho é uma tarefa de discernimento e de disciplina, e começa por enxergar aquilo que a rotina esconde. O touro que está na fazenda há cinco estações, que todo mundo conhece pelo nome e que já deu bons bezerros, é exatamente o tipo de animal que ninguém questiona, e é por isso mesmo que ele precisa ser questionado.
Quem vive o dia a dia da fazenda se acostuma com o que vê todos os dias, e isso vale para o dono, para o gerente e para o vaqueiro mais experiente; a familiaridade é uma bênção na lida e um ponto cego na gestão. Por isso um olhar externo e imparcial, de alguém que não tem afeto pelo touro velho nem constrangimento em perguntar onde está o laudo, costuma encontrar em poucas horas aquilo que a rotina escondeu por anos. É esse tipo de pergunta incômoda, feita com respeito e com os números na mesa, que a Direcione leva para dentro das fazendas que acompanha.
A estação de monta é o momento em que o resultado do ano seguinte é plantado. Quem entra nela com cada touro avaliado, cada lote dimensionado e cada decisão registrada não tem garantia de colheita, porque não estamos no controle de tudo, mas tem a congruência de ter feito a sua parte antes de esperar que o pasto faça a dele.
Fé se põe em Deus; no touro, põe-se o laudo.
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