Perdas da prenhez ao desmame: como calcular e acompanhar
Aprenda a calcular as perdas da prenhez ao desmame e a registrar cada etapa para identificar onde sua fazenda perde bezerros e orientar o manejo.

Quando o veterinário termina o diagnóstico de gestação e entrega a planilha com o número de vacas prenhes, a fazenda inteira respira aliviada, e é justo que respire, porque a taxa de prenhez é o fruto de um ano inteiro de pasto, de touro, de condição corporal e de trabalho da equipe; mas permita que eu faça a pergunta que quase ninguém faz em seguida: das vacas que estavam prenhes naquele dia, quantas desmamaram um bezerro que de fato subiu na balança?
Se você não consegue responder com um número da sua própria fazenda, e responde com uma impressão, saiba que está em boa companhia, e que essa companhia, por mais numerosa que seja, é justamente o problema.
A maior parte das fazendas de cria acompanha a prenhez com cuidado e acompanha a desmama com orgulho, mas trata o caminho entre uma e outra como se fosse uma estrada sem buracos, quando na verdade há bem mais de um ano de calendário entre o restante da gestação, o parto e os meses de aleitamento, e em cada um desses trechos a vaca que estava prenhe pode deixar de entregar o bezerro que você já contava como certo.
O que se perde nesse caminho raramente aparece numa reunião, porque não tem nome, não tem linha própria no relatório e se dilui na diferença entre dois números que cada um olha em uma época diferente do ano.
O número que fica entre dois números
O indicador que proponho que você passe a acompanhar é simples de calcular e incômodo de olhar: a perda da prenhez ao desmame, que é o número de vacas diagnosticadas prenhes menos o número de bezerros desmamados dessas mesmas vacas, dividido pelo número de vacas diagnosticadas prenhes. Se a fazenda tinha quinhentas vacas prenhes no diagnóstico e desmamou quatrocentos e cinquenta e três bezerros delas, a perda foi de quarenta e sete bezerros, ou 9,4% do que o diagnóstico prometia. Repare que esse indicador não substitui a taxa de prenhez nem a taxa de desmama; ele mede exatamente o trecho que nenhuma das duas mede sozinha, e é nesse trecho que muita fazenda boa de reprodução devolve, sem perceber, parte do que conquistou na estação de monta.
Esse exemplo de quinhentas vacas é um exercício, e quero ser claro sobre de onde vêm os números dele, porque não são de fazenda nenhuma: apliquei sobre as quinhentas prenhes a perda de gestação de 3,6% encontrada num levantamento de fazendas de Minas Gerais e, sobre os bezerros nascidos, a mortalidade de 6% até a desmama registrada num rebanho da Embrapa, dois estudos que apresento logo abaixo.
Juntar números de pesquisas diferentes serve para mostrar a ordem de grandeza da conta, e não como referência para a sua fazenda, que só os seus próprios registros podem dar. Ainda assim, a ordem de grandeza merece respeito: com o indicador do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, da Esalq/USP) para o bezerro em Mato Grosso do Sul em R$ 3.573,00 por cabeça no fechamento de 30 de outubro de 2026, quarenta e sete bezerros representariam algo perto de R$ 168 mil que o diagnóstico anunciou e a balança não confirmou, sem contar o custo de manter, durante meses, vacas que no fim não entregaram nada.
O que a pesquisa mostra sobre esse caminho
O primeiro trecho é o da própria gestação. Um estudo publicado em 2022 na revista Ciência Animal Brasileira, conduzido por Lima e colaboradores com 18.462 registros de IATF (inseminação artificial em tempo fixo) de 24 fazendas de Minas Gerais, acompanhou as vacas confirmadas prenhes e encontrou 3,6% delas, 350 de 9.617, que não mantiveram a gestação entre 30 e 120 dias depois da inseminação. A perda variou conforme a categoria, chegando a 5,9% nas vacas de segunda cria, e os autores concluíram que a ordem de parto e o escore de condição corporal, a nota que se dá ao estado de carne da vaca, influenciaram a taxa de perda.
Há um detalhe nesse estudo que vale ouro para quem decide: ao final da estação de monta, apenas 30% das vacas que perderam a gestação estavam prenhes de novo, e 47,4% estavam vazias e sem ciclar, o que significa que a perda de uma prenhez costuma levar junto boa parte da chance de recuperar aquela vaca no mesmo ano.
Em rebanhos pequenos, a oscilação pode ser bem maior para um lado ou para o outro. Um trabalho de conclusão de curso de Zootecnia da Universidade Federal de Uberlândia, de 2023, com 96 fêmeas Nelore inseminadas, registrou perda de 11,53% nas vacas multíparas entre o primeiro ultrassom, feito entre 28 e 32 dias, e a confirmação depois dos 45 dias, enquanto primíparas e novilhas não tiveram perda; é um grupo pequeno, de uma única fazenda, e não deve ser usado como média de nada, mas mostra com clareza que a perda não se distribui por igual e que só aparece para quem volta a examinar.
O segundo trecho começa no parto. A Embrapa Gado de Corte publicou, em 2001, a análise de nove anos de registros (1983 a 1991) do seu sistema de produção a pasto em Campo Grande, e ali a mortalidade de bezerros até a desmama foi de 6%, respondendo por 53,7% de todas as mortes do rebanho, com 8,1% de mortalidade entre os machos e 3,9% entre as fêmeas, diferença que levou os autores a recomendar atenção maior aos bezerros machos.
São dados antigos e de um rebanho experimental, e por isso não servem como meta, mas ensinam onde olhar: mais da metade das mortes do sistema estava concentrada nos bezerros, e não nas vacas. Bem antes disso, em 1985, a Embrapa Cerrados já descrevia o sistema tradicional da região com morte de 8% dos bezerros antes de completarem um ano, contra um potencial de 5%.
O terceiro ponto é o mais desconfortável: nem sempre se descobre a causa. Uma nota técnica de 2025 do programa de pós-graduação em Ciências Veterinárias da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), sobre a investigação de perdas reprodutivas e de bezerros recém-nascidos em bovinos de corte, afirma que a taxa de diagnósticos conclusivos nesses casos fica em torno de 50%, e insiste que a investigação começa por um mapa da fazenda e uma linha do tempo dos eventos, com a pergunta sobre em que fase da gestação ocorrem os abortos. Em outras palavras, até o especialista depende do registro que a fazenda guardou; sem data, sem lote e sem o que foi visto, a investigação começa às cegas.
Três trechos, três perguntas
Para que esse indicador saia do papel, proponho que você divida a perda em três trechos e faça a cada um deles uma pergunta que só os seus números podem responder. O primeiro trecho vai do diagnóstico ao parto: quantas vacas diagnosticadas prenhes não pariram, quantas delas foram vistas abortando e quantas simplesmente apareceram vazias na estação seguinte sem que ninguém soubesse quando a gestação se perdeu?
O segundo vai do parto aos primeiros trinta dias de vida do bezerro, que é a fase em que se concentram os problemas do nascimento, da mamada e da diarreia: quantos bezerros nasceram, quantos morreram nesse primeiro mês e em que pastos, em que semanas e de quais categorias de vaca eles eram filhos? O terceiro vai do primeiro mês até a desmama: quantos bezerros sumiram, morreram ou foram descartados nesse período, e quantos deles têm causa registrada, em vez de um simples traço na contagem?
Repare que nenhuma dessas perguntas exige tecnologia sofisticada nem protocolo novo; exige que a vaca diagnosticada prenhe tenha uma identificação, que o parto seja anotado com data e pasto, que cada morte de bezerro seja registrada com idade aproximada, local e o que o vaqueiro observou, e que alguém da fazenda tenha a responsabilidade de fechar essa conta na desmama.
A decisão sobre o que fazer com cada perda, seja vacinação, manejo da maternidade, nutrição da vaca no terço final da gestação ou investigação de aborto, pertence ao médico-veterinário ou ao zootecnista responsável pelo rebanho, e não a um artigo; o que pertence ao dono é garantir que o técnico receba dados, e não lembranças, quando sentar para decidir.
Por que esta é a época de começar
No Brasil Central, novembro costuma encontrar a fazenda com a estação de monta em andamento, com bezerros nascendo ou recém-nascidos em boa parte dos rebanhos e com o pasto mudando de cara nas águas, e é exatamente nesse período, de chuva, barro e lotes cheios de bezerro novo, que o segundo trecho da perda costuma pesar.
Se a sua parição está acontecendo agora, ainda dá tempo de combinar com a equipe, nesta semana, como cada nascimento e cada morte serão anotados, e de levar ao veterinário a pergunta sobre o que precisa ser observado e coletado quando um bezerro morrer ou uma vaca abortar. Se a parição já terminou, a tarefa é reconstruir a conta da última safra com o que existir de registro, mesmo incompleto, porque um número imperfeito, feito com honestidade, ensina mais do que nenhum número.
Há também uma razão de caráter, e não apenas de dinheiro, para olhar esse trecho de frente. Quando multiplicou os pães e os peixes, Jesus mandou recolher os pedaços que sobraram, como registra João 6:12: "Depois que todos receberam o suficiente para comer, disse aos seus discípulos: 'Ajuntem os pedaços que sobraram. Que nada seja desperdiçado'". Quem recebeu a fartura de um bom diagnóstico de gestação tem o dever de mordomia de cuidar para que nada daquilo se perca por descuido, e a primeira forma de cuidar é saber, com números, o que se perdeu e onde.
Um olhar de fora sobre o caminho inteiro
O dono que vive a rotina da fazenda tende a enxergar cada perda isolada, o aborto daquela vaca, o bezerro que morreu na chuva, o que sumiu no pasto de baixo, e é natural que seja assim, porque cada caso tem uma história e uma desculpa razoável. O que costuma faltar é alguém que olhe o caminho inteiro, do diagnóstico à balança, sem apego às explicações de cada caso e sem interesse em defender quem quer que seja, e que pergunte com imparcialidade por que o número final ficou onde ficou.
É esse tipo de leitura, feita com os dados da própria fazenda e com discernimento para separar o que é acaso do que é padrão, que a Direcione se propõe a fazer ao lado do pecuarista que quer ordem no próprio rebanho.
Antes de qualquer conversa, porém, faça você mesmo a conta da última desmama: quantas vacas estavam prenhes, quantos bezerros foram pesados e onde ficou a diferença. Se a resposta vier rápida e documentada, a sua fazenda tem uma fundação sólida; se não vier, você acabou de encontrar o primeiro ralo para fechar.
Prenhez se anuncia no curral, mas resultado só se confirma na balança, e quem conta apenas o anúncio acaba colhendo surpresa.
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