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29 de outubro de 2026 · Ale Rodrigues

Custo do bezerro desmamado: além do que sai do caixa da fazenda

Entenda o custo real do bezerro desmamado, do desembolso à depreciação e ao capital, para avaliar a rentabilidade e proteger o patrimônio da fazenda.

Se alguém perguntasse a você hoje, numa conversa de curral, quanto custa o bezerro que sai da sua fazenda na desmama, qual seria a resposta, e de onde ela viria: do extrato do banco, de um caderno de despesas, de uma planilha atualizada ou de uma impressão que foi se formando ao longo dos anos, à base de safras boas e safras ruins?

A pergunta parece simples, mas a maior parte das respostas que circulam por aí mede apenas uma parte do custo, aquela que saiu do caixa no ano, e deixa de fora tudo o que a fazenda consome sem passar pelo banco: a cerca que envelhece, o curral que vai precisar ser refeito, o trator que perde valor a cada safra, o trabalho do dono e da família que ninguém lança como despesa, a terra que poderia estar arrendada e o capital parado em vacas, touros e benfeitorias. Esse custo não aparece no extrato, mas aparece no patrimônio, e aparece quase sempre tarde demais, quando a cerca cai, quando o filho pergunta se vale a pena continuar ou quando a próxima geração recebe uma fazenda menor do que parecia.

O momento torna a pergunta ainda mais necessária. Segundo o indicador do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo), divulgado pelo portal Farmnews, o bezerro em Mato Grosso do Sul estava cotado em R$ 3.487,66 por cabeça em 15 de outubro de 2026. Com preço nesse patamar, quase qualquer conta feita só com o desembolso fecha no azul, e é justamente aí que mora o risco: o preço alto funciona como anestesia, e a fazenda pode estar se descapitalizando em silêncio enquanto o dono comemora a margem.

Três contas, três perguntas diferentes

Os levantamentos de custo de produção do Projeto Campo Futuro, conduzido pela CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) com o Senar (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural) e o Cepea, organizam o custo em três camadas, e cada camada responde a uma pergunta diferente sobre a sua operação.

A primeira camada é o custo operacional efetivo, conhecido pela sigla COE: tudo o que foi efetivamente desembolsado no ano agrícola, como sal mineral, suplemento, vacinas, medicamentos, combustível, salários, manutenção e despesas administrativas. Pela metodologia da CNA, quando a receita supera o COE, a atividade se mantém no curto prazo. Essa conta diz se você atravessa o ano, e nada além disso.

A segunda camada é o custo operacional total, o COT, que soma ao COE a depreciação de máquinas, benfeitorias e rebanho (o valor que deveria ser poupado todo ano para repor o que se desgasta) e o pró-labore, que é a remuneração de quem administra a atividade, avaliada a preço de mercado e que pode incluir o trabalho da família. Quando a receita cobre o COT, diz a metodologia, a atividade pode se sustentar no médio e no longo prazo; quando não cobre, o sinal é de descapitalização. Essa conta responde se a fazenda consegue se repor e pagar quem trabalha nela, inclusive você.

A terceira camada é o custo total, o CT, que acrescenta ao COT o custo de oportunidade do capital investido e da terra. No método do Campo Futuro, o capital é remunerado a uma taxa de 6% ao ano sobre o capital médio investido, e a terra é avaliada pelo valor de arrendamento de áreas semelhantes na mesma região. Essa é a conta mais incômoda, porque pergunta se o patrimônio que você mantém na cria rende pelo menos o que renderia em outro uso, e é a que menos gente faz.

Nenhuma das três contas está errada; o problema começa quando o pecuarista usa a resposta da primeira para tomar decisões que dependem da segunda e da terceira, como reformar pastagem, comprar touro, tomar crédito ou decidir se a próxima geração deve continuar na atividade.

O que a pesquisa já mostrou sobre a cria

Um trabalho da Embrapa Pantanal, publicado em dezembro de 2019 como Boletim de Pesquisa e Desenvolvimento número 140, analisou uma fazenda típica de cria da região, com 10 mil hectares, nos anos de 2009, 2011, 2014 e 2018, usando exatamente essas três camadas. O resultado ajuda a enxergar o mecanismo: em todos os anos avaliados, a receita pagou os custos efetivos, ou seja, a margem bruta foi positiva, chegando a cerca de R$ 775 mil em 2018; e em nenhum dos anos a receita cobriu o custo operacional total, com receita líquida negativa nos quatro anos, de cerca de R$ 247 mil em 2018. Os autores registram que, mantido esse quadro, há o risco de o produtor não conseguir remunerar o capital investido no longo prazo.

É preciso ter discernimento para ler esse dado: trata-se de uma fazenda modal do Pantanal (representativa do sistema mais comum na região), com realidade própria de clima, escala e logística, e o estudo não autoriza ninguém a dizer que toda fazenda de cria do Brasil Central vive a mesma situação. O que ele mostra é o desenho do problema: uma operação pode pagar todas as contas do ano, ano após ano, e ainda assim não estar pagando o desgaste das suas estruturas nem o trabalho de quem a administra. Por fora, tudo funciona; por dentro, a fundação vai sendo consumida.

Os painéis mais recentes do Campo Futuro reforçam outra lição, a de que o próprio custo efetivo varia muito de uma realidade para outra. Em Altamira, no Pará, uma propriedade modal de cria com 150 matrizes teve o COE estimado em R$ 189,76 por arroba vendida, segundo a CNA, em agosto de 2025. Em Araguaçu, no Tocantins, uma propriedade modal de cria com 245 matrizes apresentou COE de R$ 267,96 por arroba comercializada, com suplementação e alimentação respondendo por 31% do custo operacional e mão de obra por 19%, conforme matéria do portal Feed&Food de setembro de 2026. Repare que esses números, por mais úteis que sejam, falam apenas da primeira camada; a depreciação, o pró-labore, a terra e o capital ainda estariam por somar.

Onde o custo se esconde na fazenda de cria

Na cria, o custo que não sai do caixa tem endereço conhecido, e vale percorrer a fazenda com esse olhar. Está na cerca e no curral, que duram muitos anos mas não duram para sempre; está nos bebedouros, nas redes de água, nos cochos e nos galpões; está no trator, no carro e nos implementos; está nos animais de serviço, como os cavalos da lida; está no rebanho, porque a vaca também envelhece e precisa ser reposta, e a bezerra que você retém para reposição deixa de virar receita naquele ano. Cada um desses itens tem um valor de reposição e uma vida útil, e a depreciação é apenas a divisão honesta de um pelo outro.

Está também no seu trabalho. Muitos donos de fazenda de cria administram a operação pessoalmente, com a ajuda do cônjuge ou dos filhos, sem lançar remuneração nenhuma para isso, e a conta fica bonita, mas incompleta: se amanhã você precisasse contratar alguém para fazer o que você faz, quanto custaria? Esse valor é custo, e enquanto ele não entra na conta, o resultado da fazenda está inflado pelo seu próprio trabalho não pago.

E está, por fim, na terra e no capital. A terra própria não gera boleto, mas tem um valor de arrendamento na sua região, e o rebanho de matrizes, os touros e as benfeitorias representam um capital que poderia estar aplicado de outra forma. Não se trata de vender a fazenda; para muitas famílias, a terra é herança, vocação e projeto de vida, e isso tem um valor que nenhuma planilha captura. Trata-se de saber quanto essa escolha custa, para fazê-la de olhos abertos, e não por omissão.

O preço alto como anestesia

O ciclo pecuário alterna fases de preço alto e de preço baixo do bezerro. Em fase de alta, a margem sobre o desembolso fica folgada, a sensação é de prosperidade e a tentação é tratar todo o dinheiro que sobrou como lucro, gastando, retirando ou investindo como se a conta estivesse completa. O problema aparece na fase seguinte: quando o preço recua, a cerca que não foi reformada, o curral que ficou para depois e a reposição de matrizes que foi adiada chegam todos juntos, exatamente quando a receita encolhe.

Quem calculou o custo total na fase boa sabe quanto da sobra pertence, na verdade, à reposição das estruturas e ao próprio trabalho, e pode separar essa parte antes de decidir o que fazer com o restante. Quem calculou só o desembolso descobre o tamanho do buraco na pior hora, e costuma resolvê-lo com crédito caro ou com venda forçada. A diferença entre os dois não está no preço do bezerro, que é igual para ambos; está na ordem com que cada um enxerga a própria operação.

Perguntas para responder com os seus números

Antes da próxima desmama, vale reservar uma tarde para responder, com honestidade e com papel na mão, a algumas perguntas. Quanto a sua fazenda desembolsou nos últimos doze meses, e quantos bezerros e quilos de bezerro esse desembolso produziu? Você sabe quanto valeria hoje refazer as cercas, o curral, a rede de água e as benfeitorias, e quantos anos cada item ainda deve durar? Quanto custaria contratar alguém para fazer o trabalho de gestão que você e a sua família fazem sem remuneração lançada? Qual é o valor de arrendamento de uma área semelhante à sua, na sua região? E, somadas essas camadas, o preço que você recebe pelo bezerro cobre o custo operacional total e o custo total, ou cobre apenas o desembolso?

Se você tiver dificuldade de responder a alguma dessas perguntas, isso não é motivo de vergonha, mas é um diagnóstico: aquela informação está faltando na sua gestão, e as decisões que dependem dela estão sendo tomadas no escuro. Comece pelo que é mais fácil de levantar, como o inventário das benfeitorias e das máquinas com uma estimativa de vida útil, e avance para o restante; uma conta aproximada e honesta vale mais do que uma conta precisa e incompleta.

Congruência entre o que a fazenda parece e o que ela é

Existe uma questão de caráter por trás desses números. Uma fazenda pode parecer próspera por anos, com as contas em dia e o caixa positivo, enquanto o patrimônio que sustenta tudo isso vai sendo consumido devagar; é o mesmo descompasso de quem mantém a fachada de uma casa pintada enquanto a fundação racha por baixo. A integridade na gestão começa por aceitar a conta completa, mesmo quando ela é menos agradável do que a conta parcial, porque é sobre a conta completa que se constrói algo que dura e que pode ser entregue à próxima geração em ordem.

A Escritura fala da casa que se constrói com sabedoria e se firma com entendimento: "Com sabedoria se constrói uma casa; com discernimento ela se consolida. Pelo conhecimento os seus cômodos se enchem do que é precioso e agradável"(Provérbios 24:3-4). Na fazenda de cria, sabedoria e entendimento passam, muito concretamente, por saber quanto custa aquilo que você produz, em todas as camadas, e por ter a coragem de agir a partir dessa verdade.

Por fim, vale reconhecer que nem sempre é fácil fazer essa conta sozinho. Quem vive a fazenda todos os dias se acostuma com ela, e o que se repete deixa de ser percebido: a cerca velha vira paisagem, o trabalho da família vira obrigação e o preço bom do bezerro vira prova de que tudo está certo. Um olhar externo e imparcial, sem vínculo com a rotina e sem interesse em agradar, costuma enxergar com mais facilidade o custo que ficou de fora e ajudar a transformar a conta completa em decisões de investimento, de reposição e de sucessão. É esse o trabalho a que a Direcione se dedica junto ao pecuarista de cria.

Bezerro que só paga o que sai do caixa está sendo pago pela própria fazenda.

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